21 novembro 2012

Sofrida saudade



            Era como se qualquer memória dela, desde o jeito de como ela brincava com os cabelos até o formato dos dedos de seus pés -- que ela detestava -- fosse destruindo seu coração por inteiro. Ele se encontrava em completa frustração, em completo arrependimento. Como a deixou escapar? Como pôde permitir que o amor de sua vida, a única pelo qual ele se apaixonou, pudesse ir? Os dias cada vez mais eram longos e a dor que sentia em seu peito transbordava em lágrimas. Não conseguia mais passar uma noite sequer, sem olhar aquele retrato em que os dois tiraram juntos no primeiro encontro. Ela estava linda. Usava aquele vestido florido em que realçava seus olhos de modo que, só quem conhece o verdadeiro significado do amor, se tornasse um completo amante pela beleza que ela transmitia. Seu perfume no dia era cítrico, tinha um cheiro que o fazia chorar ainda mais pelo fato dela não estar mais ali. Só sabia chorar e chorar. Não se lembrava do último dia que passara, depois de sua partida, sem chorar. Era como se ele estivesse a ponto de morrer e só ela fosse a cura.
            Lembrava de como a havia tratado com desprezo; de como não a tinha tratado do jeito que ela merecia. De quando ela acordava de manhã, tão linda, e ele não se dava o respeito de dizer um  "Você é incrível", mesmo querendo. Ela se foi... Sem saber disso. Como é horrível a dor do arrependimento. O que fazer em momentos como esse? A única coisa que ele pensava era: Por quê? Não se perguntando o por quê dela ter ido, mas o por quê dele ser assim, tão frio. Não ter demonstrado seus sentimentos quando eles vinham à tona; não ter dado o abraço ideal quando ela precisava; não ter dito o quanto ela era importante, e não ter demonstrado o carinho que, sim, sentia por ela. Por que fora tão neutro? Por que fora tão meio-termo, e nunca tão intenso ou tão vazio? Será que era por medo de que ela se sentisse presa a ele, sabendo que ele não a merecia pela perfeição que ela exalava?  Se ao menos não demonstrasse nada, ela pudera ao menos ser livre...
           Dor. Angústia. Era o que o devorava de dentro pra fora. Fazendo com que ao redor dele houvesse uma poça, só de lágrimas.
          -- Eu faria de tudo pra te ter aqui, Marie. Me perdoe, por favor. -- Ele sussurrava, entre soluços, desejando acima de tudo que ela o escutasse.




           Eram 8h da manhã. No outro lado da cidade, acordava resplandescente, tomava seu banho e, logo após, seu café. Saía pra passear às 9h com seu cachorro Dougie. O adorava mais que tudo. Para ela, seu único companheiro. Ao chegar em casa, rotineiramente, apanhava seu punhado de folhas coloridas que tinha nas gavetas do rac da sala e punha-se a escrever.
"Por que desperdiçar lágrimas quando quem as merece não está aqui para vê-las?" Parou aí. Pensou um pouco sobre ele, sobre como era seu jeito. Pôs-se a chorar. Não era forte o bastante pra pôr em prática o que havia escrito? Ser tão forte assim não era bem dela.
           -- Por que? -- Ela se perguntava. -- Por que teve que ser assim? Sou tão escapável? Sou tão substituível ou indiferente pra você? -- Não sabia mais onde pôr a dor que havia em seu peito. Tentava mostrar para o mundo que estava feliz sem ele, que sabia que ele não valia nem 1/5 das lágrimas que ela derramava. Mas mesmo assim, o amava. O desejava. Ela sabia que, se ele viesse pedir perdão a ela e se pusesse a chorar, ela choraria junto e com certeza o perdoaria. Mas sabia  que ele não era assim. Sabia que era orgulhoso o bastante para nem ligar pro seu celular. Ou então mandar cartas. Cartas. Era isso, todo manhã. O que ela tinha vontade de dizer, mas não sabia como. O que ela tinha que pôr pra fora, mas não tinha para quem dizer, não tinha para quem contar, desabafar... Sua vida se resumia a isso. Mas para quê ao certo? Se eram tudo mentiras; frases clichês com a finalidade de mantê-la forte. Forte? Era tudo menos isso. Ela exalava solidão, tristeza e fraqueza. Seu ponto fraco: Fellipe. E todo dia, toda tarde, toda noite... Os dois se desejavam mais que tudo. Fellipe tomando coragem para pedir perdão, para ir até ela e dizer o quanto ele está arrependido, o quanto ele era um tolo por tê-la deixado ir. E, Marie, a doce Marie... Só queria um abraço daquele de quem ela jurou passar o resto da vida ao lado. Um aconchego, um "me perdoa meu bem, eu te amo".


"Queria ter aceitado
As pessoas como elas são 

Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração" - Epitáfio, Titãs

Um comentário:

  1. Que texto mais fofo, Mary. Imagino que possa ser o que você está passando ou passou, e é linda a maneira como você transcreve isso para o blog. Escrever sobre nós nem sempre é tão fácil quanto parece. Lindo!

    Beijos,
    Will

    ResponderExcluir

Visite também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...